janeiro 28, 2017

Por que o Intersaber existe?

O Instituto Intersaber foi criado para atuar e contribuir com os esforços na busca de caminhos de superação da crise do nosso tempo, uma crise civilizatória e de ordem planetária, emaranhada nos domínios econômico, político, social, cultural, ecológico e do pensamento.

A partir de uma leitura sistêmica do cenário atual, que não pretende abranger a totalidade, mas situar alguns dos principais problemas e seus contrapontos possíveis, procuramos expor nossas preocupações e motivações. São questões gerais que tanto dizem respeito ao Brasil como a muitos outros países.

Vemos na ideia do Comum, enquanto paradigma de gestão coletiva de bens compartilhados e agregador de formas novas de produção, governanças mais abertas e transparentes, um elemento chave de articulação de diferentes instâncias como o urbano, o rural, a tecnologia, o conhecimento, a identidade, entre outras. Consideramos que o enfrentamento dessas problemáticas se dá a partir do micro para o macro, do particular ao geral e de baixo para cima.

O Econômico:

A afirmação da ideologia neoliberal e a busca desenfreada por lucros tem gerado mais e mais concentração das riquezas mundiais nas mãos de poucas centenas de super ricos com drásticas consequências para o restante da população, assim como para os recursos naturais. A crise financeira internacional da última década tem agravado esta situação com as receitas de austeridade fiscal aplicadas pelos governos, gerando cidadãos endividados, seja pelo decréscimo dos salários e desemprego, seja pela dívida pública dos Estados que lhe é transferida por meio dos cortes de investimentos nos serviços públicos como cultura, educação e saúde. Não podemos deixar de considerar que esta crise econômica, que alimenta outras crises, também se apresenta como um dispositivo de ordem que atende a certos interesses e por isso tende a ser permanente.

Encontrar uma perspectiva de saída para este cenário requer que identifiquemos padrões econômicos alternativos mais justos e solidários, que possibilitem maior autonomia aos indivíduos e equilíbrio com os processos ecológicos. A emergente economia colaborativa dos bens comuns se apresenta como uma alternativa na atualidade, mas é necessário conectá-la com os princípios cooperativistas da economia solidária e do comércio justo. A desconcentração das riquezas deve passar por uma descentralização dessa produção, priorizando os desenvolvimentos locais. Isto significa partir dos arranjos produtivos locais organizados em circuitos curtos de produção e consumo, começando pelos bairros e deles para as cidades e depois regiões.

O Político:

A política institucional passa por uma grande crise de legitimidade que ameaça a democracia. Uma disjunção cada vez maior se verifica entre representantes e representados pela desconexão e autonomia do sistema político em relação à cidadania, em que os políticos profissionais, seguindo a lógica do financiamento de campanhas eleitorais, legislam apenas para seus credores e não para o bem comum. Dessa maneira, o sistema político é capturado pelo sistema financeiro, a corrupção atinge níveis incontroláveis e a democracia se torna um regime de fachada. A indignação dos cidadãos frente a esse estado de coisas, associada ao desemprego, empobrecimento e perda de acesso aos serviços públicos básicos, devido a crise econômica, muitas vezes descamba para reacionarismos e novos fascismos que culpam minorias e estrangeiros, favorecendo a ascensão política de demagogos oportunistas e populistas que obtêm êxitos eleitorais e contribuem para disseminar discursos belicosos e autoritarismos de Estado. Soma-se, ainda, os terrorismos fundamentalistas, também consequência de uma política nefasta, que aumenta a tensão social, fechando fronteiras, impedindo a livre circulação de pessoas e justificando um Estado policial global de vigilância em massa. Os direitos humanos e individuais são, assim, colapsados.

Por outro lado, a indignação cidadã também tem manifestado um poder criador e constituinte de novas práticas políticas e projetos sociais em reação à crise. Movimentos multitudinários, enquanto conjuntos de singularidades proliferantes que atuam em cooperação e produzem o comum, abrem novos campos de ação nas cidades em defesa dos espaços públicos, como praças e parques. Estes movimentos exprimem o desejo de uma democracia real, integralizada na vida cotidiana e não apenas nos espaços institucionais. Multiplicam projetos de inovação cidadã que transformam a imaginação em ação, incidindo de maneira transformadora em nível local e criando experiências compartilhadas e modos de vida mais participativos no bem comum, para além da eleição de representantes políticos.

O Social:

O individualismo exacerbado, fruto de uma ordem social hierárquica e competitiva, não produz a autonomia e emancipação do indivíduo, tal como apregoava os projetos da sociedade moderna, mas produz atomização e solidão. Esse indivíduo desprendido da noção de comunidade e que não se sente partícipe da sociedade a qual pertence se configura mais como um consumidor que como um cidadão, ele despreza a coisa pública e o bem comum. Além disso, a desigualdade social, constituída pelas formas de dominação patrimonial, racial e patriarcal, exclui e nega direitos sociais, sendo responsável pelo aumento da violência, preconceito, intolerância e ódio às diferenças, degradando o que resta dos laços de solidariedade social.

Ultrapassar a busca pelo consumo para entregar-se a busca da cidadania requer primeiro uma tomada de consciência do indivíduo atomizado que passa a se enxergar como parte da sociedade e essa consciência pode emergir do compartilhamento de sua condição comum com tantos outros. A superação do individualismo se dá na mobilização do comum que acontece no espaço público, durante ações coletivas, ou em espaços criados por movimentos sociais, de classe ou identitários, para suas finalidades. Pode-se, assim, enfrentar a dominação, se afirmar no espaço público enquanto coletivo e conquistar direitos. É fundamental, portanto, a criação desses espaços de convívio para intercâmbios, cooperação e sinergia, fortalecendo o sentimento de cidadania enquanto vínculo de pertencimento comunitário e enquanto sujeito de direitos que se vê participante e, portanto, solidário em sua comunidade. O individualismo atomizado dá lugar a uma individualidade conectada.

O Cultural:

Apesar de ser reconhecida como patrimônio da humanidade, a diversidade cultural ainda enfrenta pressões econômicas e políticas que constantemente ameaçam a manutenção dos modos de vida e os saberes de povos indígenas e comunidades tradicionais, que resistem ao cerco do Estado e do mercado para impedir seu histórico genocídio, defender seus direitos culturais e a permanência em seus territórios. Há o processo hegemônico de globalização que exerce uma padronização cultural a partir do ocidente e a mercantilização da cultura que deturpa o valor comunitário dos bens culturais. Além disso, muita violência ainda se interpõe à coexistência entre culturas. Novas diásporas de exilados e refugiados provocadas por guerras e devastações econômicas em seus países alimentam a xenofobia e o racismo em seus lugares de destino. Fundamentalismos religiosos crescem e promovem a intolerância à diversidade religiosa, desfigurando seus universos culturais próprios.

Contudo, a globalização não é um processo de mão única, mas também um processo de trocas generalizadas pela profusão das comunicações e deslocamentos de pessoas que resulta em mais diversidade pela pluralidade de combinações culturais. Nesse sentido, intercâmbios entre grupos culturais, regiões e países podem fortalecer e valorizar o que tem de específico em cada um e também buscar colaborações e simbioses. A internet desempenha um papel importante nesse sentido pela instantaneidade das comunicações que encurtam as distâncias e aproximam o outro. Nas grandes cidades, a presença de imigrantes dos mais distintos lugares e culturas fazem com que o próprio mundo se instale nas localidades, trazendo consigo interpretações variadas da experiência comum. O reconhecimento da importância de uma multiplicidade de saberes e modos de vida é o caminho para assegurar os modos de vida das populações tradicionais e indígenas e seus saberes integrados à diversidade natural de seus territórios. Tais saberes, que constituem uma etnociência, podem contribuir com o enfrentamento dos problemas ecológicos, gerando novos conhecimentos e tecnologias sociais.

O Ecológico:

Na história da Terra, vivemos atualmente no chamado Antropoceno, período em que as transformações no planeta são conduzidas pelas ações do homem e embora seja uma fração de tempo ínfima dessa história, significativas alterações geográficas e climáticas já foram produzidas a ponto de ameaçar a vida como um todo. Nunca os efeitos da ação humana em nível global foram tão sentidos e a despeito da consciência ecológica, encontros e tratados internacionais sobre meio ambiente, nossos padrões de produção e consumo seguem degradando os ecossistemas em ritmo acelerado. Um recurso escasso e poluente como o petróleo continua no topo da economia mundial e na base de disputas geopolíticas que desestabilizam governos e levam a guerras que destroem países. A escassez de água em muitos lugares já é uma realidade fazendo despontar no horizonte novos conflitos bélicos em torno desse recurso comum. Enquanto isso, a noção de progresso é medida por padrões quantitativos de crescimento econômico que não podem se projetar a longo prazo.

A reconciliação entre a sociedade e a natureza depende de uma reviravolta no conceito de desenvolvimento, muito além das noções de desenvolvimento sustentável e economia verde que se tornaram uma adaptação dos problemas ecológicos à economia de mercado. É preciso pensar numa economia dos bens comuns tendo em vista a comunidade da vida planetária e não apenas a comunidade humana, pois os recursos naturais, como florestas, rios e oceanos são comuns a todos os seres vivos. O conceito de Bem Viver, proveniente de povos originários da América Latina, andinos e amazônicos, diz respeito aos direitos da natureza e, juntamente com a noção de Comum, consegue conjugar os princípios de solidariedade e reciprocidade na sociedade e entre a sociedade e a natureza. Uma mudança de padrões como a que é necessária também implica em modos de vida simples que reduzam drasticamente as necessidades de consumo, assim como uma ampliação das tecnologias sociais e ecologicamente responsáveis que aumentem progressivamente atividades de auto abastecimento individuais e coletivas.

O Pensamento:

Sendo as transformações que operam na atualidade também de ordem cognitiva, devido a ampla disseminação das tecnologias de informação e comunicação digitais, pode-se dizer que a crise de nosso tempo é também uma crise cognitiva. A questão está no choque entre o pensamento hiper especializado da sociedade industrial que separa e compartimenta o conhecimento em funções e disciplinas fechadas e o contexto da globalização de interdependência cada vez maior entre os elementos que agem sobre a realidade e que requerem conhecimentos transversais para interpretá-los e compreendê-los. A fragmentação do conhecimento tal como ainda insiste a educação institucional descapacita as pessoas para lidar com os problemas contemporâneos e encontrar soluções. Além disso, há o excesso de informações que cotidianamente nos inunda, transmitidas pelo sistema da mídia, sobretudo pela a internet e as redes sociais. Informações fragmentadas, descontínuas e superficiais que provocam um efeito desorientador, formando opiniões de maneira acrítica e dificultando que se chegue aos problemas fundamentais.

Em contraponto a esta situação está o pensamento sistêmico que é capaz de enxergar os problemas e as causas atuantes como conjuntos e interdependências. Faz-se necessário valorizar e investir em pedagogias que promovam a religação dos saberes para uma visão do todo, que ensinem a se orientar no caos de informações, distinguir e filtrar aquilo que é verídico daquilo que é falso, aquilo que é relevante daquilo que não é, e, sobretudo, articular informações para transformá-las em conhecimento. O pensamento ecológico é um exemplo de pensamento interdisciplinar e sistêmico que pode ajudar a dissipar essa problemática. Os conhecimentos tradicionais dos povos originários também tem muito a contribuir nesse sentido, pois são conhecimentos integrados. É preciso revelar a diversidade de possibilidades de conhecimento negadas pelo pensamento único.

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