Encontro entre cultura tradicional e digital em Mandira

Entre os dias 19, 20 e 21 de fevereiro de 2016, reuniram-se na comunidade quilombola de Mandira, localizada no município de Cananéia, pessoas provenientes de diferentes partes do Vale do Ribeira e de outras regiões para um encontro sobre a temática da cultura digital. O encontro foi organizado pelo projeto Povos do Ribeira, no âmbito de suas ações junto ao PROAC da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, cujo o prêmio foi contemplado no edital artes integradas em 2014.

O projeto Povos do Ribeira, desenvolvido através de uma parceria entre a Manufatura de Ideias, o Estúdio Mezclador, o Instituto Intersaber e o NUPAUB-USP, tem o objetivo difundir informações sobre a diversidade cultural do Vale do Ribeira, destacando sua importância na construção de modelos de desenvolvimento local sustentável para a região. Para isso, vem conformando um banco de dados aberto e colaborativo em uma plataforma digital disponível no endereço http://www.povosdoribeira.org.br.

Tambores e Baobás

Motivado pela combinação existente no projeto Povos do Ribeira entre cultura tradicional e cultura digital, o encontro teve como proposta criar um espaço de reflexão e ideias por meio de rodas de conversa, relatos de experiências e intercâmbios de ritmos entre os participante de maneira a favorecer novos e ampliados entendimentos sobre as relações entre cultura e tecnologia. Esta vivência foi proporcionada pela comunidade tradicional e remanescente de quilombo Mandira que recebeu a todos com muita hospitalidade em seu alojamento e centro comunitário. E também com a parceria do Ponto de Cultura Caiçaras, de Cananéia, e com a Casa de Cultura Tainã, de Campinas, ambas referências no trabalho com cultura tradicional e na criação e uso de tecnologias livres. Participaram do encontro aproximadamente 55 pessoas de diferentes municípios, comunidades e organizações, entre professores, artistas, estudantes, pesquisadores e lideranças comunitárias, cuja confluência nestes dias gerou um caldo de ideias que transcendeu a proposta inicial.

Muitos participantes chegaram durante o final da tarde e noite da sexta-feira, dia 19, já iniciando a vivência. Os debates estavam programados para começar no dia 20, pela manhã, enquanto outros participantes continuavam chegando. Na abertura dos trabalhos, Luis Eduardo, do projeto Povos do Ribeira, salientou o formato aberto a ser seguido durante o encontro, de rodas de conversas para compartilhamento e trocas de ideias, reproduzindo a dinâmica de uma rede. Lucas Pretti, também do projeto Povos do Ribeira, seguiu com uma apresentação sobre cultura digital, destacando que a temática se refere a comportamento, pois trata de como hábitos, formas de produzir e maneiras de pensar são afetadas pela implementação de uma nova linguagem tecnológica que neste caso é a tecnologia de comunicação digital. E como esta torna evidente uma dinâmica que é a de todas as culturas no sentido da criação coletiva, no uso comunitário e permanente recombinação de seus elementos. Algo que é perdido de vista nas sociedades capitalistas que privatizam a produção cultural e bloqueiam sua a livre circulação, mas que continua evidentes nas culturas tradicionais. A partir de então, nesta relação entre as culturas digital e tradicional, é iniciado o debate com diferentes intervenções dos participantes.

Um primeiro ponto que se destaca, tornando-se preponderante durante o encontro é o da educação. A presença de professores como Lisângela Kati, Luiz Ketu, Deco Miracatu, Jaqueline Cavalcanti, Marcelo Plácido, Cleber Rocha, entre outros, impulsionaram reflexões sobre como contribuir para que as pessoas produzam informações e não apenas acessem e da necessidade de tornar os estudantes produtores e não apenas consumidores de informação. Kati, que é natural de Cajati e hoje está em São Paulo, chamou a atenção para importância dos estudantes saberem filtrar as informações na internet, saber distinguir fontes confiáveis e não confiáveis. Luiz Ketu, do Quilombo São Pedro em Eldorado, falou do desafio que os jovens tem hoje em conseguir se empoderar dos conhecimentos da internet e também da sua cultura e fazerem pontes entre ambos, sendo para isso necessário o papel dos professores em direcionar a eles um uso adequado das tecnologias. Deco, natural de Miracatu e atualmente em Registro, colocou a questão de provocar uma apropriação tecnológica que rompa com o modelo dominante que ela impõe. Jaqueline, da ONG Pé no Mato de Eldorado, falou de suas práticas de uso pedagógico dos celulares com estudantes e da lei estadual que proíbe o uso desses aparelhos em salas de aula.

Além da questão da educação, outro eixo que permeou todo encontro foi trazido pela Casa de Cultura Tainã, através das reflexões de TC Silva sobre as maneiras de conceber a tecnologia. Idealizador da Rede Mocambos que na década passada instalou diversas antenas do GESAC e Telecentros em quilombos do Vale do Ribeira, TC enfatizou a questão de se falar em territórios, pois não é apenas o acesso ao território que importa a uma comunidade, mas o controle sobre o território. E o mesmo se aplica a relação com a tecnologia, que é também território pois é extensão da cultura. E a comunicação que uma comunidade precisa será alcançada se ela tiver a memória de seus ancestrais preservadas, como um valor, e isso está ligado ao seu território. Alguém que abandona seu território comunitário para morar num centro urbano, perde suas referências, sua relação com a natureza, sua vizinhança, sua família, não trabalha mais com o que é seu, enfraquece e fica doente. Por isso, pensar no uso adequado da tecnologia é o mesmo que pensar sobre a relação com o território. Território livre, trabalho livre, tecnologia livre.

Na mesma linha, Fernando Oliveira, do Ponto de Cultura Caiçaras, reforça que não adianta brigarmos apenas para ter acesso à internet sem pensar nas formas de uso e que é preciso entender a questão filosófica da tecnologia que é a liberdade para criarmos nossa própria tecnologia da informação, criar nossos próprios conteúdos e deixar acessível para todo mundo.

Após estas reflexões, houve uma pausa para um banho de cachoeira e almoço preparado pelas mulheres do Mandira com direito a farofa de ostra e arroz de mariscos, para na parte da tarde os debates continuarem.

A roda de conversa se formou novamente no Centro Comunitário com a cerimônia da entrega dos Baobás pela Casa de Cultura Tainã à Comunidade de Mandira. TC explicou o significado deste ato e a expressão simbólica do Baobá, esta árvore africana que vive milhares de anos e é considerada sagrada porque está associada a preservação da ancestralidade, da identidade, visão de mundo e espiritualidade dos povos africanos. Grande símbolo da africanidade juntamente com o tambor. E, assim, foram deixados no centro da roda, os dois pés de Baobá com os tambores até o seu plantio no dia seguinte.

Na sequência tiveram inicio os relatos de experiências em cultura digital em que foram apresentadas e debatidos alguns casos de plataformas digitais comunitárias e sua formas de uso. Luis Eduardo apresentou a plataforma Povos do Ribeira, que além do banco de dados aberto e colaborativo possui funcionalidades de rede social e fóruns de discussão. Uma plataforma que trata da diversidade cultural e aposta também na ideia de diversidade tecnológica, isto é, na importância da existência de uma multiplicidade de plataformas de comunicação que possuam funcionalidades e objetivos específicos e que se comuniquem entre si, ao invés da dominação de algumas poucas plataformas que reúnem toda a população de usuários de internet do mundo. Lucas Pretti, mostrou as diferentes partes da plataforma Povos do Ribeira apresentando seu funcionamento e lançou algumas questões ao debate sobre como é o acesso à internet no Vale do Ribeira, como praticar e exigir transparência nos processos que envolvem as comunidades e como compartilhar recursos educacionais entre as diversas manifestações culturais.

A seguir, Cassius Cruz, Diretor da Escola João Surá em Adrianópolis, falou da experiência a partir de pesquisadores de Santa Catarina, Paraná e São Paulo, que conseguiu aprovar um projeto num edital do MinC para acervos afrobrasileiros. O projeto é o da criação de uma plataforma que reúne produção acadêmica, de órgãos governamentais e de organizações comunitárias sobre quilombos destes três estados. Cassius destacou o cuidado na divulgação desse material, sobretudo a produção de organizações comunitárias, cuja livre disseminação nem sempre é desejável.

Antônio de Lara do grupo musical Batucajé, lembrou de tentativas anteriores de criação de plataformas locais de comunicação como o Puxirão Virtual, mas que não avançaram porque ninguém colaborava e que as pessoas preferem usar o Facebook do que as próprias ferramentas.

TC Silva falou que a memória das comunidades não depende da internet e apresentou a ideia das Mucuas, elaborada após muito tempo de discussão da Casa de Cutura Tainã sobre software livre. Mucuas é o nome do fruto do Baobá que funcionam como servidores em rede para serem bibliotecas de memória das comunidades, seus valores e tradições preservados que elas intercambiam umas com as outras fazendo circular sua própria comunicação. A proposta é de instrumentalizar as comunidades para que elas produzam sua própria informação e conteúdos e que isso circule na medida do interesse da comunidade. Quando falamos em território livre se a comunidade tiver um servidor desses, todos da comunidade poderão acessar como uma rede local, mesmo que não esteja na internet. Estas Mucuas são móveis e se quiser podem ser levadas em qualquer lugar com ponto de acesso a internet para serem conectadas. Mas importante saber que o offline também é uma opção. A memória também pode ser preservada no Baobá, no tambor, na rabeca.

Rosana Meneses, da Casa de Cultura Tainã, frisou que se as pessoas do Vale do Ribeira não fizerem sua própria comunicação, outras pessoas farão e que se plataformas como o Povos do Ribeira tem como proposta que cada comunidade e pessoa da região seja um comunicador, há todo um caminho a ser percorrido.

Com relação ao debate sobre educação na parte da tarde, foi colocado tanto a importância do uso destas plataformas em sala de aula, quanto na necessidade de se pensar num sentido mais ampliado de escola para além da instituição formal.

Nesse primeiro enfoque, Kati relatou que cresceu no Vale do Ribeira, conhecendo na escola somente o lado negativo da região até ir para a faculdade e começar a conhecer verdadeiramente a região. Isso fez com que levasse para o mestrado e o doutorado a questão da apropriação local da história do Vale do Ribeira e hoje vê como grande desafio transformar essas questões em conteúdos escolares a serem ensinados e aprendidos nas salas de aula da região. Por isso acha que estas plataformas podem ajudar muito nesse sentido, mas só depois que os professores e diretores de escolas se sensibilizarem para isso. Fernando Oliveira aventou a possibilidade de processos educativos com uso destas plataformas em que professores e estudantes postem em sala de aula os conteúdos debatidos. E Deco, que aprendeu a pesquisar o Vale do Ribeira através da arte a partir do movimento artístico-cultural de Miracatu na década de 1990, relatou sua experiência com os estudantes na construção coletiva de conhecimentos sobre o Vale do Ribeira na escola em Registro em que estão na produção do terceiro video documentário sobre pescadores do rio Ribeira. Contudo, a questão de se pensar o processo educativo para além do ensino formal também foi colocada por TC, dizendo que não é só à escola que cabe o papel de ensinar tais coisas às crianças e que o próprio território é a escola de que elas também precisam se estivermos imbuídos do desejo de que elas devem ser bem cuidadas. E relatou uma experiência no acampamento quilombolinha em que observaram que as crianças passavam horas por dia consumindo conteúdos em tablets e celulares que nada tinham a ver com sua identidade. Eles chamaram as crianças para fazer eles mesmos os filmes organizando um processo com crianças de seis anos de filmar, editar, fazer roteiros e entrevistas, tendo resultados fantásticos.

As interações continuaram no entardecer e a noite com apresentação do Grupo de Capoeira Nosso Senhor do Bonfim, de Cananeia, e do Grupo de Fandango de Mandira. Continuando na manhã de domingo, dia 21, com apresentações musicais de Antônio de Lara do Batucajé e TC e Layla da Casa de Cultura Tainã, Seguindo-se o plantio dos Baobás.

A comunidade do Mandira escolheu dois locais para o plantio, o primeiro num local de visitação de grupos de estudo de meio que passarão a partir de agora a conhecer o Baobá e sua simbologia, e o segundo na escola da comunidade situada no centro do território, onde os antepassados viveram e lutaram para garantir a terra para seus descendentes, como contado por Chico Mandira. A cerimônia do plantio foi conduzida através de um cortejo com cantos e batuques de tambores.

E assim se encerrou o encontro, após uma última refeição, os participantes iniciaram o retorno para suas casas levando consigo estes novos aprendizados coletivos.

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