Em Pleno Século XXI?

Artigo publicado originalmente na plataforma Argonautas, no dia 13 de setembro de 2017. Disponível em: https://www.argt.com.br/single-post/2017/09/13/Em-Pleno-Século-XXI

Por Luis Eduardo Tavares

Nos últimos tempos, são tantas as calamidades que nos assaltam nas notícias diárias, quase sempre relacionadas ao desastre da política institucional, que nos deixam num estado de constante perplexidade. Em um só tempo, assistimos e experimentamos a retirada de direitos sociais e políticos, a anulação de reservas naturais e terras indígenas, o escancaramento da corrupção nos altos escalões dos governos, marcha de grupos racistas – caso de Charlotesville, com novas gerações reerguendo velhos ódios irracionais – e até a ameaça de guerra atômica perpetrada por líderes lunáticos de nações ditas avançadas, além de uma coleção sem fim de violências e injustiças. Em uma palavra: retrocesso.

Charlottesville, 13.08.17. Foto: Andrew Caballero-reynolds / AFP / Getty Image

Podemos considerar o quanto de nosso sentimento em meio a isso é efeito das redes sociais que trazem à tona a todo momento essas mazelas e que sincronizam os estados de espírito, algumas vezes fazendo a perplexidade passar à indignação e esta se converter em ação direta nas ruas, mas em geral controlando os anseios com a caixa de diálogo que te convida a se expressar livremente. Mas o fato é que independente dos efeitos que podem provocar as redes sociais, vivemos tempos difíceis, de transições e disputas entre uma ordem caduca e outra em definição. E, nesse contexto, é comum que nas caixas de diálogo do Facebook ou Twitter o sentimento de perplexidade se manifeste com a exclamação “em pleno século XXI”, frase que revela uma abalada crença no progresso. Sim, o estranhamento de que tais eventos estejam ocorrendo no ano de 2017 parte de uma arraigada ideia de que a história caminha sempre para estágios melhores de civilização. Ideia, porém, falaciosa, pois a verdade é que grande parte dos dramas cotidianos são produzidos pelo espírito do progresso e não pela falta dele.

Não é a primeira vez que as sociedades se defrontam com a derrocada do otimismo no progresso. Isso nunca foi tão forte como durante os anos de guerras mundiais (1914-1918 e 1939-1945), quando o monstro do progresso se mostrou em sua plenitude. Mesmo assim, parece que continuamos a introjetar a confiança nas promessa do progresso e esperar um século XXI que só cabe nesta ilusão. Muitos já denunciaram que o fenômeno do nazi-fascismo não foi propriamente da Alemanha ou da Itália da primeira metade do século XX, mas sim da modernidade, dos regimes tecnocráticos da sociedade de massas, e, portanto, não estamos imunes a isso, temos apenas a vantagem de conhecer o passado para, quem sabe, aprender.

Se examinarmos esta ideia de progresso, tipicamente ocidental, que se encontra na formação da ciência moderna e do capitalismo, vemos que o tão propalado espírito do progresso é profundamente regido por um ímpeto patriarcal, de dominação e exploração da natureza e, consequentemente, do ser humano, e uma pretensão de desenvolvimento ilimitado. Isso é facilmente constatado nos escritos dos “pais” da ciência moderna na Europa do século XVII, Galileu, Bacon, Descartes e Newton, esses senhores acostumados à perseguição de “bruxas” e que conceberam o cosmos não mais da maneira orgânica como a milenar e universal representação da “mãe natureza”, mas como um relógio mecânico. Em seguida, os filósofos do Iluminismo pintaram o movimento da história como uma curva ascendente e contínua que nada corresponde aos reais movimentos de ondulações que avançam, retrocedem e seguem aos trancos e barrancos, sem nenhuma garantia de melhora.

Desmatamento ilegal em Santarém, Pará. 16.06.17. Foto: Alberto Araújo.

Este progresso difundido pela sociedade ocidental é puramente um progresso tecnológico, em que ampliam-se a potencia e a riqueza das sociedades que estão no seu topo. Mas, em grande medida, o ser humano que fabricava um machado de pedra continua o mesmo que fabrica uma bomba atômica. A tecnologia é uma máquina de administrar racionalmente a irracionalidade humana e a mitificação da tecnologia é uma mitificação do progresso. Nos resignamos aos encantamentos e imperativos tecnológicos pela conveniência e conforto que ela nos proporciona numa vida que foi programada para nós. E, mesmo conhecendo o potencial catastrófico do desenvolvimento tecnológico, deixamo-lo de lado a cada ciclo de inovação, exaltando a nova tecnologia como salvadora, sem atentar para a racionalidade que ela obedece, como se finalmente a tecnologia fosse resolver todos os problemas que ela mesma criou. E isso em pleno século XXI.

Como lidar então? A tecnologia é instrumento e como tal é ambivalente, pois está ajustada à intencionalidade de um sujeito. Acontece que não são exatamente pessoas que governam a tecnologia, mas sim racionalidades, e uma racionalidade dominante tem maior capacidade de moldar e impor uma dada tecnologia que sirva a seus propósito, esta que reveste o espírito ocidental do progresso e nos converte em seus instrumentos, uma vez que agimos de acordo com ela. Se o progresso produz hecatombes é preciso renegá-lo, buscar suas linhas de fuga, suas ideias e vozes dissonantes e contrárias. Mais racionalidades críticas e menos confiança tácita no progresso. A crítica ao progresso está na base da formulação de ciências e tecnologias alternativas, baseadas em valores e saberes que não atuam na manutenção do aparato dominante, mas que comportam outros modelos de sociedade, que não escravizem a natureza e o ser humano em busca de acumulação monetária.

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