Uma Cidade Não é um Computador

Artigo de Shannon Mattern, “A City Is Not a Computer”, publicado originalmente no Places Journal, em fevereiro de 2017 (https://placesjournal.org/article/a-city-is-not-a-computer). Mattern é pesquisadora e professora da New School, faculdade de Nova York, e escreve sobre arquitetura, bibliotecas, arquivos e infraestruturas urbanas de comunicação.

Tradução: Luis Eduardo Tavares

MotherBoard City de 9Flame [Art Institute of Vancouver]

Uma Cidade Não é um Computador

Parece uma verdade óbvia, mas precisamos falar alto e claro. A inteligência urbana é mais do que o processamento de informações.

O que uma cidade deve otimizar?” A questão foi colocada no último verão pela Y Combinator – a formidável aceleradora tecnológica que lançou milhares de startups, desde o AirBnB e o Dropbox à estufas robóticas e delivery de garrafas de vinho – à medida que seus empreendedores anunciavam uma nova agenda de pesquisa: construir cidades a partir do zero. Para a revista Wired, o veredito é de algo que “não é realmente louco.”1

Para cada pergunta razoável lançada pela Y Combinator, a exemplo de: “Como as cidades podem ajudar mais seus moradores a serem felizes e alcançar seu potencial?” – havia outra absurda, tipo: “Como medir a eficácia de uma cidade (quais são seus KPI’s)?” – Key Performance Indicators, no jargão de inteligência dos negócios. Quase não havia menção aos urbanistas, planejadores e acadêmicos que durante séculos fizeram as grandes perguntas: Como funcionam as cidades e como elas podem funcionar melhor?

Naturalmente, é possível que nenhuma cidade seja prejudicada pela realização desta pesquisa pois, passados seis meses, a produção pública do projeto New Cities ainda consiste em apenas dois posts, um deles anunciando o programa e outro divulgando o primeiro contratado. Ainda assim, a retórica merece atenção, afinal nesta nova era política toda a retórica exige um escrutínio. Nos mais altos níveis do governo, vemos evidências de dados quantitativos sendo manipulados ou fabricados para justificar ordens imprudentes que interrompem não apenas a “política como de costume”, mas também princípios democráticos fundamentais. Grande parte do trabalho em tecnologia urbana tem o potencial de jogar diretamente neste novo modo de governança.

As empresas de tecnologia reagiram fortemente contra a proibição de muçulmanos viajarem, mas como elas se colocarão em questões mais sutis de “otimização” social? Veículos autônomos, câmeras e sensores penetrantes são os tipos de tecnologias disruptivas que um presidente que defende a infraestrutura pode considerar o máximo. Steve Bannon, o estrategista-chefe de Donald Trump, que anos atrás lançou a experiência da Biosfera 2, também está no conselho da Cambridge Analytica, empresa de mineração e análise de dados que busca contratos governamentais. O presidente começará a tuitar sobre como as cidades dominadas pelo crime seriam melhores se fossem executadas como computadores?

É um ambiente politicamente complicado, para dizer o mínimo. Nestas primeiras etapas, o primeiro contratado em New Cities é Ben Huh, CEO do império de memes Cheezburger. “Não há escassez de espaço para construir novas cidades“, ele efervesceu, em um post explicando sua decisão em se juntar ao projeto Y Combinator. “A tecnologia pode semear condições iniciais férteis através de nações e geografias“. Sua meta para seis meses de pesquisa: “criar um sistema aberto e repetível para a rápida formação de cidades que maximizem o potencial humano“.2 Nenhuma pressão.

Equipe de Parkour de Gaza [Eoghan Rice / Trócaire]

Assembleia do 15M na praça Puerta del Sol em Madri, 2011. [Luis Eduardo Tavares]

Cena da assembleia com brasileiros e imigrantes na ocupação de um prédio no filme Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé. [Vitrine Filmes/Divulgação]

Enquanto isso, a Alphabet (nascida do Google) está avançando seus planos para construir suas próprias cidades otimizadas. A sua divisão urbano-tecnológica, a Sidewalk Labs, já instalou quiosques públicos de WiFi nas ruas de Nova York: nódulos infraestruturais (conhecidos como “Links”) que poderão algum dia trocar dados com veículos autônomos, transportes públicos e outros sistemas urbanos.3 A empresa também está em parceria com o Departamento de Transportes dos Estados Unidos em esforços como o “Smart City Challenge“, que doou US$ 50 milhões à cidade de Columbus, Ohio. Em junho passado, no mesmo dia em que Y Combinator anunciou seu projeto New Cities, The Guardian publicou detalhes do “Flow” da Alphabet, o software de nuvem por trás dos experimentos de mobilidade em Columbus.4 Em poucos meses, as parcerias estavam em andamento em 16 outras cidades.5

O transporte urbano é o primeiro alvo para a disrupção, mas não terminará aí. Dan Doctoroff, associado de Michael Bloomberg (magnata e ex-prefeito de Nova York) que fundou o Sidewalk Labs, pergunta: “Como seria uma cidade se você tivesse começado do zero na era da Internet – se você construísse uma cidade da internet?” Em novembro passado, a empresa deu outro passo nessa direção, lançando quatro novos laboratórios que irão trabalhar na acessibilidade da habitação, nos serviços de saúde e sociais, nos processos municipais e na colaboração da comunidade. A empresa planeja executar projetos-piloto em distritos urbanos selecionados, em seguida, ampliar. Anunciando a expansão, Doctoroff lembrou o passado de revoluções em tecnologias urbanas:

Olhando para a história, pode-se argumentar que os maiores períodos de crescimento econômico e produtividade ocorreram quando se integrou a inovação no ambiente físico, especialmente nas cidades. A máquina a vapor, a rede elétrica e o automóvel transformaram fundamentalmente a vida urbana, mas não vimos muita mudança em nossas cidades desde antes da Segunda Guerra Mundial. Se você comparar fotos de cidades de 1870 a 1940, é como noite e dia. Se você fizer a mesma comparação de 1940 até hoje, quase nada mudou. Assim, não é surpreendente que, apesar da ascensão dos computadores e da internet, o crescimento tenha desacelerado e os aumentos de produtividade sejam tão baixos. (…) Portanto, nossa missão é acelerar o processo de inovação urbana.6

Enquanto Doctoroff conta algumas versões desta história, desde que o Sidewalk Labs foi lançado em 2015, o momento da nova expansão, três semanas após a eleição presidencial dos EUA, já alterou o contexto. Enquanto todo mundo estava assistindo o drama na Trump Tower, a maior empresa de busca-mapeamento-condução-publicidade-informação-organização do mundo estava jogando seus recursos atrás de uma “quarta revolução” em infraestrutura urbana.

Sonhos de um urbanismo informático

Claro que grandes empresas como a Alphabet já redimensionaram dramaticamente as cidades onde estão sediadas,7 mas ainda não tiveram o privilégio de construir em um quadro branco. A ideia de “New Cities” certamente não é nova, e o modelo agora emergente nos Estados Unidos tem precedentes em países asiáticos e do Oriente Médio, onde a Cisco, a Siemens e a IBM se associaram a desenvolvedores imobiliários e governos para construir “Cidades inteligentes” em tabula rasa.

Não sabemos como serão esses experimentos urbanos. Uma vez que eles estão em constante estado de desenvolvimento, sempre “versionando” em direção a um modelo otimizado no horizonte, eles não são facilmente avaliados ou criticados.8 Se você acredita no marketing hype, no entanto, estaremos no limite de um futuro urbano no qual sensores incorporados, câmeras e pontos de internet onipresentes, smartphones em rede e os sistemas operacionais que os ligam todos juntos produzirão eficiência sem precedentes, conectividade, e harmonia social. Estamos transformando a topologia idealizada da web aberta e da Internet das Coisas em forma urbana.

O programador e escritor de tecnologia Paul McFedries explica este pensamento:

“A cidade é um computador, a paisagem de rua é a interface, você é o cursor, e seu smartphone é o dispositivo de entrada. Esta é a versão baseada no usuário, de baixo para cima da ideia da cidade como um computador, mas há também uma versão de cima para baixo, que é baseado em sistemas. Olha para sistemas urbanos como trânsito, lixo e água e se pergunta se a cidade poderia ser mais eficiente e melhor organizada se esses sistemas fossem ‘inteligentes'”.9

Enquanto projetos como o Sidewalk Labs e o New Cities, do Y Combinator, foram concebidos em uma época de big data e computação em nuvem, eles estão enraizados em devaneios anteriores. Desde que a internet era pouco mais do que alguns nós interligados, os urbanistas, tecnólogos e escritores de ficção científica imaginaram cibercidades e e-topias construídas “a partir da rede”.10 Designers modernistas e futuristas viam paralelos morfológicos entre formas urbanas e placas de circuito. Assim como novos modos de telecomunicação sempre remodelaram terrenos físicos e economias políticas, novos métodos computacionais tem informado o planejamento urbano, na modelagem e administração.11

Cena do HQ cyberpunk do Batman, Digital Justice, feito em computador pelo artista Pepe Moreno em 1990. Analogia entre a Gothan City futurista e circuitos de computador.

A modernidade é boa em renovar metáforas, desde a cidade como máquina, à cidade como organismo ou ecologia, à cidade como fusão ciborgiana do tecnológico e do orgânico.12 No nosso paradigma atual, a cidade como computador, é atraente porque molda a confusão da vida urbana como programável e sujeita à ordem racional. A antropóloga Hannah Knox explica: “Como soluções técnicas para os problemas sociais, as tecnologias da informação e das comunicações encapsulam a promessa da ordem sobre a desordem… como um caminho para uma política emancipatória da modernidade“.13 E também há eco dos pré-modernos. A cidade computacional extrai o poder de um imaginário urbano que remonta à milênios, à cidade como um aparelho para a manutenção de registros e gerenciamento de informações.

Há muito tempo concebemos nossas cidades como repositórios de conhecimento e processadores de dados, e eles sempre funcionaram como tal. Lewis Mumford observou que quando os governantes errantes da Idade Média europeia se estabeleceram em cidades capitais, instalaram um “regimento de empregados e funcionários permanentes” e estabeleceram todo tipo de documentos e políticas (escrituras, registros fiscais, passaportes, multas e regulamentos) que exigiu um novo equipamento urbano, o edifício de escritórios, para abrigar seus gabinetes e burocracia.14 O exemplo clássico é o Uffizi (escritórios) em Florença, projetado por Giorgio Vasari em meados do século XVI, que forneceu um modelo arquitetônico copiado por cidades ao redor do mundo. “As repetições e regimentações do sistema burocrático” – o trabalho de processamento de dados, formatação e armazenamento – deixou uma “marca profunda”, como Mumford colocou, na cidade moderna.15

No entanto, o papel informativo da cidade começou ainda mais cedo do que isso. A escrita e a urbanização se desenvolveram concomitantemente no mundo antigo, e esses primeiros escritos – em tabuletas de barro, paredes de barro e formas de relevo de vários tipos – foram usados para registrar transações, marcar território, celebrar rituais e inserir informações contextuais na paisagem.16 Mumford descreveu a cidade como um espaço fundamentalmente comunicativo, rico em informações:

Através da concentração de poder físico e cultural, a cidade aumentou o ritmo do intercâmbio humano e traduziu seus produtos em formas que poderiam ser armazenadas e reproduzidas. Através de seus monumentos, registros escritos e hábitos ordenados de associação, a cidade ampliou o escopo de todas as atividades humanas, estendendo-as para trás e para frente no tempo. Por meio de suas instalações de armazenamento (edifícios, cofres, arquivos, monumentos, tabuletas, livros), a cidade tornou-se capaz de transmitir uma cultura complexa de geração em geração, pois reuniu não apenas os meios físicos, mas também os agentes humanos necessários para transmitir e ampliar este patrimônio. Isso continua a ser o maior dos presentes da cidade. Em comparação com a complexa ordem humana da cidade, nossos atuais engenhosos mecanismos eletrônicos para armazenar e transmitir informações são cruéis e limitados.17

A cidade de Mumford é uma assembleia de formas de mídia (abóbadas, arquivos, monumentos, registros físicos e eletrônicos, histórias orais, patrimônio cultural vivido); agentes (arquiteturas, instituições, tecnologias de mídia, pessoas); e funções (armazenamento, processamento, transmissão, reprodução, contextualização, operacionalização).18 É um aparato epistemológico e burocrático grande, complexo e variado. É um processador de informações, com certeza, mas também é mais do que isso.

Instabooth, mobiliário urbano de interação híbrida (digital e analógica), inspirado numa cabine telefônica e que captura histórias passadas e opiniões presentes dos cidadãos sobre o uso de espaços públicos. Projeto de Glenda Caldwell, Urban Informatics, Queensland University of Technology.

Se ele estivesse vivo hoje, Mumford rejeitaria a noção rastejante de que a cidade é simplesmente uma grande Internet. Ele nos lembraria que os processos de urbanização são mais complicados do que escrever parâmetros para a otimização espacial rápida. Injetaria a história e o acontecimento. A cidade não é um computador. Isso parece uma verdade óbvia, mas está sendo desafiado agora (e de novo) por tecnólogos e atores políticos que falam como se pudessem reduzir o planejamento urbano para algoritmos.19

Por que devemos nos preocupar em desmistificar metáforas falsas? Porque as metáforas dão origem a modelos técnicos, que informam processos de design, que por sua vez moldam conhecimentos e políticas, para não mencionar a materialização de cidades. Os locais e sistemas onde localizamos as funções informacionais da cidade – os lugares onde vemos processamento, armazenamento e transmissão de informações acontecendo na paisagem urbana – formam entendimentos maiores da inteligência urbana.

Ecologia Informacional da Cidade

A ideia da cidade como máquina de processamento de informação tem se manifestado nos últimos anos como uma obsessão cultural com lugares de armazenamento e transmissão de dados. Estudiosos, artistas e designers escrevem livros, realizam passeios a pé e fazem mapas de infraestruturas da Internet. Temos o prazer de apontar para edifícios indescritíveis que detêm milhares de servidores zumbindo, câmeras de vigilância, antenas camufladas e zangões pairando. Declaramos que “a computação da cidade acontece aqui”.20

Dronepol, equipamento de monitoramento e vigilância da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo apresentado pelo prefeito João Doria e fabricado pela empresa chinesa Dahua Technology.

No entanto, esse trabalho corre o risco de reificar e essencializar a informação, e mesmo despolitizá-la. Quando tratamos os dados como um “dado” (que é de fato a etimologia da palavra), os vemos em suma como um acessório urbano como o tráfego ou as multidões. Precisamos mudar nosso olhar e olhar os dados no contexto do ciclo de vida da informação urbana, distribuídos em uma variada ecologia de lugares e sujeitos urbanos que interagem com ele de várias maneiras. Precisamos ver os criadores humanos, institucionais e tecnológicos dos dados, seus curadores, seus conservadores, seus proprietários e corretores, seus usuários, seus hackers e críticos. Como Mumford entendeu, há mais do que processamento de informações acontecendo aqui. As informações urbanas são feitas, mercantilizadas, acessadas, segregadas, politizadas e operacionalizadas.

Mas onde? Podemos apontar para os chips e drives, cabos e armazéns – as arquiteturas e infraestruturas urbanas específicas – onde esta ecologia expandida de gerenciamento de informações reside e opera? Escrevi sobre os desafios de reduzir as complexas estruturas técnicas e intelectuais às suas manifestações geográficas materiais, isto é, mapear “onde os dados vivem”.21 No entanto, esses exercícios podem ser úteis na identificação de pontos de entrada no sistema maior. Não é só o objeto de infraestrutura que importa; é também o pessoal, os papéis e protocolos, as máquinas e práticas de gestão, as condutas e variáveis culturais que moldam o terreno dentro da ecologia maior da informação urbana.

Intervenção urbana do artista Bansky sobre o sistema de vigilância em massa na Inglaterra.

Então, da próxima vez que você estiver olhando para uma câmera da Domain Awareness (sistema de vigilância da polícia de Nova York), pergunte como ela chegou lá, como ela gera dados – não apenas como o equipamento funciona tecnicamente, mas também quais informações ela afirma estar colhendo e por qual metodologia – e a quais interesses ela serve. E não deixe a ideia totalizante da cidade como computador te cegar para as inúmeras outras formas de dados e lugares de geração de inteligência na cidade: agências e departamentos municipais, universidades, hospitais, laboratórios, corporações. Cada um desses equipamentos tem uma orientação distinta em direção à inteligência urbana. Consideremos algumas das mais públicas.

Primeiro, o arquivo municipal. A maioria das cidades hoje tem arquivos que contém registros de atividades administrativas, finanças, propriedade da terra e impostos, legislação e trabalho. Os arquivos das antigas cidades mesopotâmicas e egípcias continham material semelhante, embora os historiadores discutam se as antigas práticas de registro mantiveram funções documentais semelhantes.22 Os arquivos asseguram a responsabilidade financeira, legitimam simbolicamente os órgãos de governo e governantes coloniais, e apagam a herança de regimes anteriores e de populações conquistadas. Eles monumentalizam a consciência histórica de uma cultura e riquezas intelectuais. Na idade moderna, eles também apoiam bolsa de estudos.23 Assim, a informação inerente ao arquivo reside não apenas no conteúdo de seus documentos, mas também em sua própria existência, sua procedência e organização (há muito a ser aprendido sobre os ideais de uma cultura examinando suas formas arquivísticas), e mesmo nas omissões e rasuras do arquivo.24

Mas, claro, nem todos os arquivos são ideologicamente iguais. Os arquivos comunitários validam as histórias pessoais e as contribuições intelectuais de diversos públicos. Enquanto isso, as agências de aplicação da lei e alfândega e os escritórios de imigração estão em rede com os repositórios da NSA (Agência Nacional de Segurança) geograficamente distribuídos e outras caixas pretas federais. Estes arquivos não são da mesma espécie, nem processam dados da mesma maneira.

As práticas e políticas de curadoria e acesso historicamente distinguiram arquivos de outro local chave de informação urbana: as bibliotecas. Enquanto os arquivos coletam materiais inéditos e atendem principalmente à sua preservação e segurança, as bibliotecas coletam materiais publicados e visam torná-los inteligíveis e acessíveis aos clientes. Na prática, tais distinções são difusas e contestadas, especialmente hoje em que muitos arquivos procuram ser mais públicos. No entanto, essas duas instituições incorporam diferentes regimes de conhecimento e ideologias.

Bibliotecas modernas e bibliotecários tem procurado capacitar os usuários a acessar informações através de plataformas e formatos e avaliar criticamente o viés, a privacidade e outras questões sob a rúbrica de “alfabetização da informação”.25 Eles constroem um quadro crítico em torno de seus recursos, muitas vezes em parceria com escolas e universidades. Além disso, as bibliotecas desempenham funções simbólicas vitais, incorporando o compromisso da cidade com sua herança intelectual (que pode incluir o patrimônio controlado por atividades capitais).

Da mesma forma, os museus da cidade refletem seu compromisso com o conhecimento em forma concretizada, com seus artefatos e cultura material. Novamente, tais instituições estão abertas à crítica ideológica. As políticas de aquisição, as práticas de exibição e os protocolos de acesso são imediatos e tangíveis, e refletem políticas culturais e intelectuais particulares.

Sala de Comando e Monitoramento do Sistema Detecta da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Tão importantes quanto os dados armazenados e acessados nos servidores da cidade, em caixas de arquivo, nas prateleiras das bibliotecas e nas paredes dos museus estão as formas de inteligência urbana que não podem ser facilmente contidas, enquadradas e catalogadas. Precisamos perguntar: que informação baseada em lugares não se encaixa em uma prateleira ou em um banco de dados? Quais são as formas não textuais e não registráveis da memória cultural? Essas questões são especialmente relevantes para as populações marginalizadas, as culturas indígenas e os países em desenvolvimento. A estudante de estudos de desempenho, Diana Taylor, nos encoraja a reconhecer formas efêmeras e performativas de conhecimento, como dança, ritual, culinária, esportes e fala.26 Esses formulários não podem ser reduzidos a informações, nem podem ser processados, armazenados ou transmitidos via cabo de fibra óptica. No entanto, são inteligências urbanas vitais que vivem dentro de corpos, mentes e comunidades.

Finalmente, considere dados do tipo ambiental, imanente do ambiente. Malcolm McCullough mostrou que nossas cidades estão cheias de arquiteturas fixas, terrenos persistentes e padrões ambientais confiáveis que ancoram todos os dados não estruturados e fluxos de imagens que flutuam por cima.27 O que podemos aprender com as informações não semânticas inerentes às sombras, ao vento, à ferrugem, nos sinais de desgaste de uma escada bem pisada, os rangidos de uma ponte maltratada – todas as mensagens indexais de nossos ambientes materiais? Eu diria que o valor intelectual dessa informação ambiental, imanente, excede sua função de terreno estável para o fluxo digital da cidade. Os dados ambientais são tanto quanto figura como são fundidos. Eles nos recordam as verdades necessárias: que a inteligência urbana vem em múltiplas formas, que é produzida dentro de contextos ambientais e culturais, que é remodelada a longa duração pela exposição elementar e pelo desenvolvimento urbano, que pode ser perdida ou esquecida. Estes dados nos lembram de pensar numa escala climática, uma escala geológica, em oposição à escala dos mercados financeiros, padrões de trânsito e ciclos de notícias.

Projeção em computação gráfica do bar que deve ser instalado no salão subterrâneo do Theatro Municipal de São Paulo.

O Processo Contra o “Processamento da Informação”

Aqui está uma visão geológica do poema de 1934, de T. S. Eliot, “The Rock”:

Onde está a Vida que perdemos em viver?
Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?
Onde está o conhecimento que perdemos na informação?

O teórico da administração Russell Ackoff levou a ideia de Eliot a um passo adiante, propondo a agora famosa (e amplamente debatida) hierarquia: Dados <Informações <Conhecimento <Sabedoria.28 Cada nível de processamento implica uma extração de utilidade do nível anterior. Assim, dados contextualizados ou modelados podem ser chamados de informação. Ou, para citar o filósofo e cientista da computação Frederick Thompson, a informação é “um produto que resulta da aplicação dos processos de organização à matéria-prima da experiência, bem como o aço é obtido a partir do minério de ferro“. Trocando a metáfora industrial por uma artística, ele escreve, “os dados são para o cientista como as cores na paleta do pintor. É pela arte de suas teorias que somos informados. É a organização que é a informação.”29 As metáforas misturadas de Thompson sugerem que há várias maneiras de transformar dados em informação e conhecimento em sabedoria.

No entanto, o termo “processamento de informação”, seja empregado em informática, psicologia cognitiva ou design urbano, normalmente se refere a métodos computacionais. Como explica Riccardo Manzotti, quando os neurocientistas adotam a metáfora do cérebro como computador, eles implicam a informação como “coisa” que é mentalmente “processada”, o que eles sabem que não é verdadeira em nenhum sentido real. A metáfora sobrevive porque ela faz uma afirmação irresistível sobre “o quão maravilhosamente complexos somos e como os cientistas inteligentes se tornaram”.30 O psicólogo Robert Epstein lamenta que “alguns dos pensadores mais influentes do mundo fizeram grandes previsões sobre o futuro da humanidade que dependem da validade da metáfora”.31 Mas o apelo da analogia não é nada novo. Ao longo da história, o cérebro (como a cidade) foi submetido a metáforas ruins derivadas das tecnologias da época. De acordo com Epstein, imaginamo-nos como pedaços de argila infundidos com espíritos, como sistemas hidráulicos ou eletroquímicos, como autômatos. O cérebro como computador é apenas o último elo de uma longa cadeia de metáforas que formam poderosamente o esforço científico em suas próprias imagens.

A cidade como modelo de computador também condiciona o design urbano, o planejamento, a política e a administração – até mesmo a experiência cotidiana dos moradores – de formas que impedem o desenvolvimento de cidades saudáveis, justas e resilientes. Vamos aplicar as críticas de Manzotti e Epstein à escala da cidade. Vimos que as ecologias urbanas processam dados por meios que não são estritamente algorítmicos e que nem todas as inteligências urbanas podem ser chamadas de informações. Não se pode processar os efeitos culturais locais dos padrões climáticos de longo prazo ou derivar percepções da evolução geracional de um bairro sem um grau de sensibilidade que exceda a mera computação. A inteligência urbana deste tipo envolve a experiência baseada no local, a observação participante, o engajamento sensorial. Precisamos de novos modelos para pensar em cidades que não calculam e precisamos de uma nova terminologia. Nos discursos urbanos contemporâneos, onde a retórica dos dados é frequentemente espumosa e fetichista, parece que perdemos a perspectiva crítica de como os dados urbanos se tornam informações espaciais significativas ou traduzem-se em conhecimento baseado no lugar.

Precisamos expandir nosso repertório (para usar um termo de Diana Taylor) de inteligências urbanas, para aproveitar a sabedoria de cientistas e teóricos da informação, arquivistas, bibliotecários, historiadores intelectuais, cientistas cognitivos, filósofos e outros que pensam sobre a gestão de Informação e produção de conhecimento.32 Eles podem nos ajudar a entender melhor a amplitude das inteligências que estão integradas em nossas cidades, que seriam muito pobres se fossem reconstruídas ou construídas de novo, com lógica computacional como epistemologia predominante.

Arena do Mundial de Futebol de Rua montada no Largo da Batata, São Paulo. [Divulgação]

Poderíamos também estar mais sintonizados com os ciclos de vida dos recursos de informação urbana – à sua criação, conservação, provisão, preservação e destruição – e às montagens de locais urbanos e temas que compõem as ecologias intelectuais de nossas cidades. “Se pensarmos na cidade como uma construção de longo prazo, com comportamentos e processos mais complexos de formação, feedback e processamento”, como propõe o arquiteto Tom Verebes, então podemos imaginá-la como uma organização, ou mesmo um organismo, que pode aprender.33 Os urbanistas e designers já estão se baseando em conceitos e métodos da pesquisa da inteligência artificial: redes neurais, processos celulares, algoritmos evolutivos, mutação e evolução.34 Talvez o entrelaçamento quântico e outras descobertas da ciência da computação possam reformular a maneira como pensamos sobre a informação urbana também. No entanto, devemos ser cautelosos para evitar traduzir essa inteligência interdisciplinar em um novo formalismo urbano.

Em vez de uma modelagem paramétrica mais gratuita, precisamos pensar em epistemologias urbanas que abraçam a memória e a história; que reconhecem a inteligência espacial como sensorial e experiencial; que consideram as formas de conhecimento de outras espécies; que apreciam a sabedoria das multidões e comunidades locais; que reconhecem as informações incorporadas nas fachadas, flora, estatuás e escadarias da cidade; que visam integrar formas de cognição distribuída paralela aos processos cognitivos distribuídos de nossos próprios cérebros.

Devemos também reconhecer as deficiências nos modelos que presumem a objetividade dos dados urbanos e convenientemente delegar decisões críticas, muitas vezes éticas para a máquina. Nós, seres humanos, fazemos a informação urbana por vários meios: através da experiência sensorial, através da exposição a longo prazo a um lugar e, sim, através da filtragem sistemática de dados. É essencial fazer espaço em nossas cidades para os diversos métodos de produção do conhecimento. E temos que lidar com as implicações políticas e éticas de nossos métodos e modelos, embutidos em todos os atos de planejamento e design. A elaboração da cidade é sempre, simultaneamente, uma promulgação do saber da cidade – que não pode ser reduzida à computação.

Notas

  1. Margaret Rhodes, “Y Combinator’s Plan to Build a New City? Not Actually Crazy,” Wired, 8 de julho de 2016.

  2. Ben Huh, “Should I Pursue My Passion or Business?,” Medium, 25 de outubro de 2016

  3. A Sidewalk Labs é um investidor chave na Intersection, ta “empresa de mídia municipal” que é parceira da LinkNYC. Ver Shannon Mattern,“Instrumental City: The View from Hudson Yards, Circa 2019,” Places Journal, abril de 2016, https://doi.org/10.22269/160426; Eliot Brown, “Alphabet’s Next Big Thing: Building a ‘Smart’ City,” Wall Street Journal, 27 de abril de 2016; Jessica E. Lessin, “Alphabet’s Sidewalk Preps Proposal for Digital District,” The Information, 14 de abril de 2016; Cory Weinberg, “Is Alphabet Going to Build a City,” The Information, 5 de abril de 2016.

  4. Mark Harris, “Secretive Alphabet Division Funded by Google Aims to Fix Public Transit in US,” The Guardian, 27 de junho 27 de 2016.

  5. Transporte para a América, “16 Cities Join T4America’s Smart Cities Collaborative to Tackle Urban Mobility Challenges Together,” 18 de outubro de 2016.

  6. Daniel L. Doctoroff, “Reimagining Cities from the Internet Up,” Medium, 30 de novembro de 2016.

  7. Ver Susie Cagle, “Why One Silicon Valley City Said ‘No’ to Google,” Next City, 11 e maio de 2015; Sean Hollister, “Welcome to Googletown,” The Verge, 26 de fevereiro de 2014; Chris Morris-Lent, “How Amazon Swallowed Seattle,” Gawker, 18 de gosto de 2015

  8. Orit Halpern e Robert Mitchell, “The Smartness Mandate: Notes Toward a Critique,” Grey Room (forthcoming).

  9. Paul McFedries, “The City as System [Technically Speaking],” IEEE Spectrum 51:4 (April 2014): 36, https://doi.org/10.1109/MSPEC.2014.6776302.

  10. M. Christine Boyer, CyberCities: Visual Perception in the Age of Electronic Communication (New York: Princeton Architectural Press, 1996); Manuel Castells, The Informational City: Information Technology, Economic Restructuring, and the Urban-Regional Process (Oxford: Basel Blackwell, 1989); William Gibson, Neuromancer (New York: Ace Books, 1984); William J. Mitchell, City of Bits: Space, Place, and the Infobahn (Cambridge: MIT Press, 1995); William J. Mitchell, e-topia: Urban Life, Jim – But Not as We Know It (Cambridge: MIT Press, 2000).

  11. Stephen Graham and Simon Marvin, Telecommunications and the City: Electronic Spaces, Urban Places (New York: Routledge, 1996); Jennifer Light, From Warfare to Welfare: Defense Intellectuals and Urban Problems in Cold War America (Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2004); Mark Vallianatos, “Uncovering the Early History of ‘Big Data’ and ‘Smart City’ in Los Angeles,” Boom California (junho de 2015).

  12. Alguns argumentam que a cidade como máquina tem uma história muito mais profunda, como evidenciado pelo uso de esquemas de grade, padrões lineares e formas geométricas regulares desde os tempos antigos, e pelo uso de modelos padronizados para o desenvolvimento urbano colonial. Veja, por exemplo, Kevin Lynch, Good City Form (Cambridge: MIT Press, 1981): 81-88. See also Matthew Gandy, “Cyborg Urbanization: Complexity and Monstrosity in the Contemporary City,” International Journal of Urban and Regional Research 29: (março de2005): 26-49, https://doi.org/10.1111/j.1468-2427.2005.00568.x; Peter Nientied, “Metaphor and Urban Studies: A Crossover, Theory and a Case Study of SS Rotterdam,” City, Territory and Architecture 3:21 (2016), https://doi.org/10.1186/s40410-016-0051-z; William Solesbury, “How Metaphors Help Us Understand Cities,” Geography 99:3 (Autumn 2014): 139-42; Tom Verebes, “The Interactive Urban Model: Histories and Legacies Related to Prototyping the Twenty-First Century City,” Frontiers in Digital Humanities 3 (fevereiro de 2016), https://doi.org/10.3389/fdigh.2016.00001.

  13. Hannah Knox, “Cities and Organisation: The Information City and Urban Form,” Culture and Organization 16:3 (setembro de 2010): 187-8, https://doi.org/10.1080/14759551.2010.503496.

  14. Lewis Mumford, The City in History: Its Origins, Its Transformations, and Its Prospects (New York: Harcourt, 1961): 344.

  15. Ver também Friedrich A. Kittler, “The City Is a Medium,” New Literary History 27:4 (1996): 721-2, https://doi.org/10.1353/nlh.1996.0051.

  16. Shannon Mattern, “Of Mud, Media, and the Metropolis: Aggregating Histories of Writing and Urbanization,” Cultural Politics 12:3 (November 2016): 310-31, https://10.1215/17432197-3648870.

  17. Mumford, 569.

  18. A concepção de “informática urbana” de Marcus Foth é igualmente ampla: engloba “a coleta, classificação, armazenamento, recuperação e disseminação do conhecimento registrado” quer (1) em uma cidade ou (2) “de, relativo a, característica de, ou constituindo uma cidade.” Veja Foth, Ed. Handbook of Research on Urban Informatics: The Practice and Promise of the Real-Time City (Hershey, PA: Information Science Reference, 2009), xxiii. Tal definição reconhece uma grande variedade de funções, conteúdos e contextos informacionais. No entanto, seu foco no conhecimento gravado e na reputação da informática como uma “ciência” de processamento de dados, ainda limitam nossa compreensão das funções epistemológicas da cidade.

  19. Para mais sobre o algoritmo como um modelo conceitual oportuno, veja Massimo Mazzotti, “Algorithmic Life,” Los Angeles Review of Books, 22 de janeiro de 2017.

  20. Para um levantamento deste trabalho, Shannon Mattern, “Cloud and Field,” Places Journal, agosto de 2016, https://doi.org/10.22269/160802, e Shannon Mattern, “Infastructural Tourism,” Places Journal, July 2013, https://doi.org/10.22269/130701. Para exemplos proeminentes, ver Andrew Blum, Tubes: A Journey to the Center of the Internet (New York: HarperCollins, 2012), and the work of Ingrid Burrington e Mél Hogan.

  21. Mattern, “Cloud and Field,” op. cit. Veja também Louise Amoore, “Cloud Geographies: Computing, Data, Sovereignty,” Progress in Human Geography, agosto de 2016, https://doi.org/10.1177/0309132516662147.

  22. James J. O’Toole, “Back to the Future: Ernst Posner’s Archives in the Ancient World,” The American Archivist 67 (Fall/Winter 2004): 161-75, https://doi.org/10.17723/aarc.67.2.h124276213041315.

  23. Alexandra Walsham, “The Social History of the Archive: Record-Keeping in Early Modern Europe,” Past & Present 230, Issue Supplement 11 (2016): 9-48, https://doi.org/10.1093/pastj/gtw033.

  24. Ann Stoler, Against the Archival Grain: Epistemic Anxieties and Colonial Common Sense (Princeton: Princeton University Press, 2010).

  25. Shannon Mattern, “Public In/Formation,” Places Journal, novembro de 2016, https://doi.org/10.22269/161115.[/footnote]

  26. Diana Taylor, The Archive and the Repertoire: Performing Cultural Memory in the Americas (Durham, NC: Duke University Press, 2003).

  27. Malcolm McCullough, Ambient Commons: Attention in the Age of Embodied Information (Cambridge: MIT Press, 2013): 36, 42.

  28. Nikhil Sharma, “The Origin of the ‘Data Information Knowledge Wisdom’ (DIKW) Hierarchy,” fevereiro de 2008; David Weinberger, “The Problem with the Data-Information-Knowledge-Wisdom Hierarchy,” Harvard Business Review, 2 de fevereiro de 2010.

  29. Frederick B. Thompson, “The Organization is the Information,” American Documentation19:3 (1968): Ver também Marcia J. Bates, “Information,” in Marcia J. Bates, Mary Niles Maac, eds., Encyclopedia of Library and Information Sciences, 3rd ed. (New York: CRC Press, 2010): 2347-60; and Rafael Capurro and Birger Hjørland, “The Concept of Information,” in Blaise Cronin, ed., The Annual Review of Information Science and Technology, Vol 37 (2003): 343-411.

  30. Riccardo Manzotti e Tim Parks, “Does Information Smell?,” New York Review of Books, 30 de dezembro de 2016.

  31. Robert Epstein, “The Empty Brain,” Aeon, 18 de maio de 2016.

  32. Marcus Foth, Nancy Odendaal, e Gregory N. Hearn, “The View from Everywhere: Towards an Epistemology for Urbanites,” in Proceedings of the 4th International Conference on Intellectual Capital, Knowledge Management and Organizational Learning, Cape Town, South Africa, 2007.

  33. Tom Verebes, “The Interactive Urban Model: Histories and Legacies Related to Prototyping the Twenty-First Century City,” Frontiers in Digital Humanities 3, fevereiro de 2016, https://doi.org/10.3389/fdigh.2016.00001

  34. Ver, por exemplo, o trabalho de Michael Batty.
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